terça-feira, 22 de julho de 2014

Dança dos véus

"Cada um descobre o seu anjo 
tendo um caso com o demônio." 
Mia Couto

Mais um véu levantado nesta dança de infinitos. Coloridos, esfuziantes, os véus seduzem. A carne exposta. A dançarina sorri sutilmente, com um dos cantos da boca para cima, um ar de sarcasmo e surpresa em seu rosto. Ela continua a dançar, sensualmente, apelando para todos os seus sentidos. A plateia toda segura a respiração. Se o espaço pegasse fogo, nenhuma alma notaria, tão entretidas na dança da carne.
O banquete dos sentidos está servido. Aproveitam as almas, distraidamente. Os sabores se misturam, complementam-se, e incrementam a dança erótica da dançarina.
Alguém se levanta na plateia. Algo está errado. A Alma tenta se lembrar. Um compromisso? Havia coisas a serem feitas, combinadas antes de entrar no show da carne. Tenta se livrar da multidão ao seu redor, não consegue. A alma é pega novamente observando a dançarina. Carne.
Outra alma aparece ao seu lado. Esta tem algo diferente. Parece ter um sol pulsando dentro de si, e uma força gravitacional semelhante à da dançarina. Alma se aproxima. Alma se distancia.
Uma dança começa ali.
Atração. Repulsão.
Carne.
Quem é você? Por que exerce este poder sobre mim? Por que sinto que quero tanto você, e ao mesmo tempo desejo que desapareça?
A outra não sabe explicar. Talvez sinta as mesmas coisas. Talvez não. As palavras nunca foram seu forte. A dança continua. De longe. De perto.
Carne.
De longe, Alma olha para si mesma. De perto, repara na Outra. Elas são semelhantes. Elas vieram do mesmo lugar. Elas são irmãs. 
Carne.
Carne.
A dançarina continua mostrando suas curvas no palco.
Alma agora se preocupa não mais com a dança. Tenta se lembrar quem era antes de entrar no show.

"Preciso ser um outro 
para ser eu mesmo "
Mia Couto

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Psicopompo

Um guia espiritual. Como o coelho de Alice.

Um amigo. Um irmão. Um guia espiritual.

De longe ele veio. Qual era a chance de nos encontrarmos, nessa multidão de almas e rostos disformes?

Levante o véu, foi a mensagem de um sonho. Ah, se aquela moça soubesse o quanto este véu é pesado! Então eu descubro. O véu é levantado alguns milímetros.

O ser magnético-enigmático é um psicopompo. Afinal, ele me trouxe até aqui. E este aqui é um lugar grande demais, cheio de energia e lembranças de um mundo acordado.

E para onde ele vai me levar?


domingo, 20 de julho de 2014

O que é real?

Um emaranhado de fios. Tudo se liga, de maneira tão sutil, que passa despercebido.
Você se coloca neste mundo, neste palco de ilusões, primeiramente porque você quer. A escolha é sua de permanecer ou não neste espaço-tempo. E aqui esquecemos quem somos lá do lado de fora, acordados.
Num sonho lúcido, você tem a liberdade de fazer o que quiser. Nele você tem a liberdade de avisar seus companheiros que isto tudo é um sonho. Ainda que ninguém ouça. Ainda que você passe como um louco abobado.
Tente, num sonho lúcido, se lembrar de quem você é fora dele. É uma tarefa realmente hercúlea.
Então eu me atenho aos detalhes (dizem que o diabo mora neles). Se eu bem me conheço, dentro e fora do sonho, eu me deixaria pistas.
O que é importante? O que você não conseguiria deixar de fazer nem se sua vida dependesse disso? O que você faz com paixão, muitas vezes sem nem perceber que está fazendo?
Assim as respostas começam a se sobressair. Elas sempre estiveram aqui. Eu só nunca perguntei antes.

E o que isto tudo tem a ver com crenças fundamentalistas, me vejo perguntando. Você acreditará no que quiser. E está tudo bem. Como você joga não me importa. Você está se divertindo? Está aprendendo?
E o sangue? É real? Parece real. Pessoas morrem. 

Pessoas acordam da ilusão deste espaço-tempo.

Parece comodismo. É comodismo?

É comodismo se você acreditar que é. 

Envolta em sensações, elas violentam meus sentidos e ofuscam meu raciocínio. Envolta em meu próprio drama, eu lacrimejo, porque imagino que eu tenha me traído.
E então, enquanto ouço discursos obstranhos (obscuros + estranhos), eu me deparo com o sonho lúcido. Nada do que o esquisito orador diz importa. Nada do que eu tenha feito importa. Nem a pseudo sensação de auto-traição.
Não sou aquele "eu" resgatado, remendado. 
Nem sou humana. Apenas estou humana. 
Sou uma cientista e uma demiurga. E tantas outras coisas que ainda não relembrei.
Memento.

Silêncio da sua ausência

Eis você, com essa sua presença quase constante.
Eis você, com seus avisos onipresentes que prefiro não escutar.
Eis você, com sua presença somente em minha mente, me lembrando dos perigos da vida.
Avisos que prefiro não escutar. Porque sentir o silêncio da sua ausência é mais do que posso suportar.
Então eu me anulo. Como antes.
Tudo mudou e nada mudou.
Você se foi, com um pedaço de mim, e às vezes parece que é pra sempre.
Você se foi, sem saber quem é (sem julgamentos), e parece que é pra sempre.
Fui apenas uma página de um livro há muito esquecido.
Se acho sábio dizer isso tudo?
Não.
Mas sonhar não é sábio.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Até uva passa

Impressionante como sons, cheiros, imagens podem nos levar, num túnel do tempo, diretamente ao passado.

Ouvindo o rock (quase punk, quase pesado) de um hino adolescêntico de paixão, ou o rock (industrial, pesaroso, dos anos 80) de um hino psicopático/amoroso, sinto-me transportar para tantos meses atrás.

O sabor do revisitado. O sabor do maracujá (passion fruit), doce e ácido ao mesmo tempo. Não deixo de sorrir. Aquele foi o início do fim para uma velha e habitual persona

Quebrou tudo ao redor antes de ir. Se eu mesma não destruí o que putrefava, o trabalho coube a outrem.
Então que venha o caos da revolução! Que venha o caos dos novos/velhos valores. Que venha a coragem para ser, acordada neste ambiente tão obscuro quanto educativo que é a vida universitária ouropretana.


quarta-feira, 9 de julho de 2014

Livros na estante

Vejo-me em uma biblioteca.
Este é o paraíso para mim.
Paredes repletas de livros.
Toda a produção de conhecimento humano até então.

Vejo-me em uma biblioteca.
Passo a mão nas bordas dos livros conhecidos.
Livros que trouxeram tanta emoção a este longo dia.
Livros que trarei para sempre em mim, juntando-se ao eco desta sonata.

Vejo-me em um biblioteca.
Um piano de cauda negro ao centro.
Uma música que cresce e se estende pelo dia.
Este misto de alegria, tristeza, saudade, paixão, loucura e obsessão faz de minha melodia única.

Vejo-me em uma biblioteca.
Mas a cena ao meu redor desaparece pouco a pouco.
O ar fica pesado, meus pulmões doem.
É chegado o momento de voltar ao sonho.


quinta-feira, 3 de julho de 2014

Onde quer que estes pés humanos me levem

Depois de tanto atormentar o universo, em busca de respostas, elas chegaram.
Rinocerontando tudo ao redor.
Vinte anos se passaram, e a questão é colocada novamente.
Então percebo que "não existe outro dia". Estou presa no mesmo dia.

De um jeito diferente (e parecido) ao dos homossexuais, sinto-me no armário. Vivendo uma vida que não é minha. Um sonho que não é meu. Tentando agradar outrem.

Ex pectare. Significa olhar para fora. Esperar algo que vem de fora.
Sendo que eu sempre soube, todas as respostas estão dentro.

Então tomo decisões. Com o gosto amargo de uma panaceia há muito atrasada.

Eu (me) vou. Pro lugar onde possa fazer o que mais amo neste sonho.




Trago

O último trago, dizia para si mesmo há três doses. O último era sempre o próximo. E o outro. Se parasse, pensaria. Se pensasse, lembraria. E...