sábado, 9 de janeiro de 2021

Maria das Dores

Era dessas dores que apareciam de vez em quando. Meio sem avisar, meio em forma de avalanche. Ferida antiga mal cicatrizada que se rompia em alguns momentos. Era dessas dores que chegavam trazendo muitas lágrimas repentinas. E o melhor era chorá-las. Engoli-las era pior. A sensação demorava mais a passar. E, assim como surgiam, as dores desapareciam. Com poucos vestígios. Um nariz meio ranheta, olhos meio avermelhados. Nada que um espelho e um pouco de água não disfarçassem. Pois ela aprendeu que chorar na frente de outras pessoas era demonstrar fraqueza. E tudo o que ela não queria ser era fraca. Lavava o rosto, secava, conferia no espelho do local de trabalho. Pronto. Quase nova. Mais um dia na rotina de dias repetidos. Mais um dia igual a todos os outros, passados tentando viver dignamente, tentando evitar que pessoas mal intencionadas se aproveitassem dos recursos públicos. Assim é a vida de Maria das Dores, funcionária de repartição pública. Exímia batedora de carimbos, escritora prolífica de ofícios administrativos, descascadora de abacaxis políticos.

Trago

O último trago, dizia para si mesmo há três doses. O último era sempre o próximo. E o outro. Se parasse, pensaria. Se pensasse, lembraria. E...