sábado, 30 de maio de 2026

Trago

O último trago, dizia para si mesmo há três doses. O último era sempre o próximo. E o outro.

Se parasse, pensaria. Se pensasse, lembraria. E se lembrasse, morreria. Por dentro. Morrer por dentro é menos morte?

Não pensava sobre isso. Engolir era mais fácil. O líquido descia quente goela abaixo. Ainda que estivesse gelado. Bebeu de uma vez.

Dormiu no balcão. Alguém o cutucou. Era o dono do bar, estava fechando. Mas ele não queria ir. Embora pra onde?

Pra casa. Não havia mais casa. Não sem ela.

A saidera, vociferou. 

Você já tomou todas as saideras por hoje. É hora de sair.

Saiu. E entrou na rua deserta. 

Entrou no deserto que era andar sem rumo. Sem chão. Flutuava pelo asfalto. Um cachorro caramelo o acompanhava. 

Ele socou o ar. Caiu.

A cara arranhada. Fechou os olhos. 

Ontem ela havia pedido que ele levasse pão quando voltasse. Ele respondeu somente: trago. Voltou com o pão. Ela não estava mais lá. Nem suas roupas. Saiu e foi buscar o trago em outro lugar. 

Nunca mais levou pão. O caramelo apoiou a cabeça no corpo morno, caído no chão.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

A caixa

Dentro, o pequeno objeto repousava. Acomodado, no escuro. Aguardava o derradeiro momento, a grande abertura. Há anos circulava no mesmo bolso do mesmo casaco. Sem nunca ver a luz. Sem ser tocado.

Seu portador, às vezes, apalpava o tecido e ali sentia a saliência cúbica. Dizia, para si mesmo ou para seu segredo, um dia.

O pequeno objeto tinha uma missão. Um propósito. E enquanto seu fim não chegasse, permanecia inacabado.

O portador atravessou a rua. Não chegou ao outro lado. Alguém o acudiu. 

Deitado, imóvel, um relevo no casaco chamou a atenção. No bolso, uma caixa, pequena.


quarta-feira, 20 de maio de 2026

Batente

Um pé dentro. Um outro fora.
No interior, procura algo esquecido. 
Mira o exterior. Medo do desconhecido. Do reconhecido.
De ceder e se perder. O peito apertado.
O pé dentro teme sair. O pé fora não quer voltar.
A porta permanece aberta. 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Alguém vai e alguém fica

Eu queria receber uma receita de bolo, dessas bem simples, bem explicadas, que eu soubesse a quantidade exata de cada ingrediente. Quando colocar no forno e quando tirar.
Eu queria que meu coração entendesse se é a hora de sair, ir embora antes que seja tarde.
Eu queria compreender quando o fim chega. Ele avisa? O fim chega esperneando, fazendo barulho? Ou o fim é sorrateiro, se esgueirando no durante, para passar uma rasteira quando a sua hora chega? 
Eu queria entender que quando um não quer, dois não vão juntos. Alguém vai e alguém fica.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Fumaça

Em questão de poucas horas, desci os círculos do submundo. Encontrei Eurídice. E no retorno, ao olhar sua face pelo que seria a última vez, eu entendi. Compreendi que seu lugar era ali, no submundo, no inconsciente, nas sombras de mim mesma.

Para sempre uma parte de mim, meio escondida, acessível nos sonhos e nos devaneios da madrugada, nos entremeios da lucidez e da embriaguez, nesse limiar entre mundos nós nos reencontramos. 

Na descida, sozinha, percebi que a jornada é minha e somente minha. Que o caminhar para dentro é solitário, por mais óbvio que seja. Que o vazio acompanha, e sempre acompanhará. 

Acendi o primeiro cigarro movida pela urgência do álcool. Os outros, pela solidão. 

A fumaça trouxe uma calma fictícia, mas bem vinda. 

Na noite pouco estrelada, a fumaça subindo no frio da madrugada, os anseios crus foram revelados. Ser amada, ser desejada. Ser livre.

A luz vermelha da torre me acompanha. Às vezes pisca. O cigarro apaga, e, enquanto acendo, tento me lembrar de quem eu fui. De quem eu sou. Do desejo latente, adormecido. 

Rodando, girando ao redor de mim mesma no limbo, não tenho Virgílio para me guiar. Ou talvez tenha. Talvez seja uma das tantas vozes que ecooam no meu cerne. Uma das tantas vozes que calo com o tédio das redes.

O que exalo de mais concreto é fumaça que sai de mim. 




quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Casca

Existe um ímpeto masoquista em retirar a casca de uma ferida que está quase cicatrizada. A casca cobre a ferida, protegendo-a das intempéries e de germes.
No entanto, a cicatrização é, por vezes, demorada. Cansativa. Incômoda.
Então a mão masoquista coça ao redor da casca, tentando não tocá-la.
A sensação de algo estranho grudado na pele é enervante.
Masoquista, a mão termina por arrancar a casca sobre a ferida, que sangra. Não tanto quanto a primeira vez. Mas sangra. E doi.

A casca se forma novamente, tempos depois.
Mais uma vez, é retirada, masoquísficamente, ainda que cause dor.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Ímãs

Sempre me encantei por olhos. Não digo a cor em si. Falo de alguns muito expressivos, que me deixaram entrever a profundidade da própria alma.
E exatamente esses olhos que me cativam: quando vejo, pela fresta de uma porta entreaberta, uma alma magnética que me atrai para dentro.
Posso falar em atração magnética então?
Quando encontro olhos assim, sinto-me como um ímã.

O desejo é o de tocar e não soltar nunca mais.

Mas eu não toco. 

Porque o desejo é só meu. E, ainda que não o seja, talvez eu nunca saiba.

O desejo nasce, então, do quase toque. Cresce no beijo sonhado que nunca existiu. Aumenta nas palavras não ditas. Sufoca nas areias do tempo que jamais foi seu. Morre na sarjeta, mendicante de um olhar que não era para ele.

Trago

O último trago, dizia para si mesmo há três doses. O último era sempre o próximo. E o outro. Se parasse, pensaria. Se pensasse, lembraria. E...