sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Tantas

Fui tantas. E outras. 
Ainda sou muitas. Ainda sinto desejos. Daquele tipo que não ouso nomear. 

Sou dele. E sou minha. Uma parte é apenas minha, e não revelo a ninguém. 
Sou uma curva dentro da outra, um Fibonacci infinito. 

Às vezes também não me sei. Só me sinto. Um caleidoscópio de anseios, de desejos famintos. E olhos que me beijam assim, de longe. 

Beijo os olhos, de soslaio, num rascunho de um caderno esquecido no fundo de um baú.
Beijo o pescoço mesmo sem poder, (quase) sem querer. Mas eu quis.

Num conto só meu, escrevo. Rabisco, pois o papel não me julga. Ele só me aceita. 
Esboço sem recitar em voz alta. Tenho medo dos sussurros da madrugada. 

A palavra dita não volta.
E a escrita? Volta? 
Talvez nem tenha ido.
A palavra escrita sonha, enquanto não voa.

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