As feridas fecham. Isto é certo. Algumas tomam mais tempo, e só. Mas enfiar o dedo na recente cicatriz, para tentar sentir algo, ah, isto é de um masoquismo tremendo.
Mas não é mais o sentir. É só a sombra do sentir, um eco que retorna após longa jornada, já sem força, sem vigor, sem o som original.
Eles agora são ficção. Uma história contada por outro alguém, e parece que eu apenas imaginei as cenas. E suas vidas continuam, eles existem, assim como eu sempre imaginei que os personagens continuam suas vidas após o final do livro. Assim como sempre acreditei que os personagens também existem, em algum lugar das tantas realidades.
E aquela não era eu. Era o projeto do que me tornei. Ela era tola. Eu ainda o sou. Ela era incuravelmente romântica. Continuo em estado crônico. Ela morria de medo. Eu ainda morro. Morro todos os dias, aos poucos, e renasço alguém que tornar-me-ei.
Alguém que não terá tanto medo, e tomará uns goles a mais de coragem todos os dias.