sábado, 30 de outubro de 2010

Persona: um denso projeto literário

Persona, em latim, significa a máscara utilizada pelos atores no teatro de tradição grega. Para cada personagem, utilizava-se uma máscara. Todo personagem do drama clássico representava um tipo, uma forma bem definida de comportamento.
Desde os doze anos de idade, me pergunto sobre as máscaras sociais. Sua origem, finalidade, seus pontos fracos. E o que nos faz tão indefesos a ponto de preferirmos usar uma máscara ao invés de enfrentar a forte luz da realidade. Não cheguei a nenhuma conclusão definitiva.
O que sei é que preciso das máscaras. Uma para cada momento específico, para cada pessoa. A máscara se baseia em mímica. Analisa-se alguém parecido (ou com máscara semelhante), copia-se o essencial, com algumas mudanças de estilo.
Contudo, entre os momentos de mudança de máscara, alguém pode avistar um relance do temido rosto. E então? Então transformo-me. Visto minha armadura guerreira: o cinismo, acompanhado de seu devido sorriso. E fujo, corro, até que possa recompor minhas lindas máscaras, meus troféus, e minha força.
Eventualmente é necessário corrigir algumas rachaduras, polir algumas arestas, aperfeiçoar a técnica de confecção das máscaras. Nada que a experiência e o intelecto não possam lidar sem muito esforço.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Sobre as (des)humanidades

Passei os últimos anos tentando não ser humana. Tentando me colocar acima da torpeza. Obviamente o plano não deu certo. Encontrei as mesmas torpezas em mim. E as mesmas sutilezas que me fazem humana. 
Claro, eu nunca quis me apegar. Mas é difícil, muito difícil. 
E sei porque alguém sempre me atraiu, magneticamente. Somos feitos da mesma podre matéria. A matéria fundida e trabalhada, na caldeira da vida. O abandono, seguido ou abrupto, confeccionou nossa couraça. Couraça esta que nenhuma força é capaz de atravessar. Nenhuma força violenta. O afeto, o carinho, que escapam quando ninguém olha. O toque suave que seus lábios antecipam nos meus. É o que sempre desejei. É o que antecipo nos dias que se seguirão. Mais uma vez. 
É o único que me interessa, nesta cidade de vícios.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O carrasco

Como eu já disse antes: amar o algoz é o mais difícil. Amar a sensação de insegurança, indecisão, medo, dentro de si, é amar o algoz. E o que se faz, em grande parte das vezes? Exprime-se no outro o algoz que existe em si. O algoz, o carrasco, o outro, é o portador, então, do sofrimento. Porque é mais são, é mais fácil e cômodo odiar o carrasco do que odiar a si mesmo.
Não desejar, nunca, levar o sofrimento aos seres queridos não é garantia de sucesso. Não se pode agradar a todos o tempo todo, sobretudo com o perigo de perder-se no coletivo. E às vezes é necessário sacrificar algum ideal em busca de um objetivo maior. Diga-me, quando o sacrifício é relevante? É tudo o que preciso saber.

sábado, 16 de outubro de 2010

Um dia musical

Neste dia de sol (finalmente) em Ouro Preto, o que me movimenta é a música. A música embala meu ser neste momento brevemente verde, brevemente esperançoso. 
"It's evolution, baby!" = mudar é o tema. Renovar, ampliar, transformar.
E qual o melhor instrumento para se reconfigurar? O aprendizado, sempre. O amor livre é divino. O amor preso, obsessão.
E ser feliz é ser livre para escolher um novo passado, presente e futuro.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Felicidenia



Havia este homem. Sua vida era povoada de amigos, familiares, amantes. Ele era o último a se queixar de sua sorte.
E então ele a conheceu. Jovem mulher, sedutora, encantou seu mundo. Ele se apaixonou por ela. Passava o dia todo a seu lado, acariciando sua pele macia e viciante.
Ela desapareceu. Sem dar explicações. Recorreu a seus amigos. Eles não souberam dizer o paradeiro dela, pois não a conheciam. Não, replicava o homem, eu mesmo a apresentei a vocês, lembro-me muito bem. Não, definitivamente não a conhecemos, nunca a vimos.
Seu desespero era palpável. Procurou-a em todos os lugares que freqüentaram juntos e nada. Agarrou uma garrafa de vodka, em busca de alguma paz. Encontrou o sono pesado dos bêbados. E sonhou.
No sonho, ele a viu. Ela sorria com a pureza da inocência perdida. Ela trazia uma das mãos fechadas. Abriu as palmas do homem e colocou um conteúdo nelas. Uma pílula. Ele acordou.
Havia uma pequena caixa preta no móvel ao lado da cama. Dessas em que se colocam anéis. Ele abriu. Uma pílula e uma frase anotada: Siga-me.
O homem não hesitou. Seguiu a migalha.
Deixou sua casa. Foi para o trabalho.
Não havia ninguém lá.
Era dia útil.
Errou pelas ruas. Nenhuma face amiga ou inimiga. As ruas estavam desertas.  E nada de sua jovem.
Até que a viu através de um vidro. Ela acenou, mas não saiu da loja. Ele podia ouví-la. Onde estão todos meus amigos?, disse o homem. Eles não importam mais, agora que você tem a mim, querido. Ela gargalhou. Tome a outra pílula, meu amor, e estaremos para sempre juntos.
O homem teve medo. Seu amor tornava-se algo doentio. Sentia-se dividido entre escolher uma nova vida ao lado dela, ou retornar à anterior.
Foi neste momento que sentiu uma pontada no estômago. Devia ser sua gastrite nervosa. O ácido corroía-o por dentro. A dor era excruciante. Depois foi a vez da enxaqueca. Por fim, o vazio do desmaio.
Não soube quanto tempo se passou. Seus olhos se abriram no hospital. Algumas pessoas no quarto observavam-no, atentas.
O homem tentou levantar-se, mas foi impedido. Não entendia porque aqueles estranhos falavam consigo de uma maneira insistentemente íntima.
Alguém trajante de branco hospitalar se aproximou. Você não está em condições de sair do leito. Por quê? Você teve um surto, e foi trazido para cá. E por que não avisaram minha família? Querido, nós somos sua família. Eu não os conheço, nunca os vi em minha vida toda! Ele deve estar ainda sob efeito da medicação nova, é o tipo de efeito colateral que se tem.
Medicação nova, do que estão falando? Querido, vamos conversar sobre isso depois, agora você está muito estressado. Não, me digam agora!
O ar pareceu se encher de tensão. As mãos do homem formigaram. A sensação alcançou o corpo todo. Ele pediu um espelho. A contragosto, os desconhecidos o forneceram.
Ele viu a face refletida. A jovem mulher, encantadora. Um grito mudo ficou preso.
A medicação nova foi utilizada para tratar sua condição, querida. Minha condição? Sim, querida: Felicidenia. Felicidenia, o que é isto? É um tipo específico de esquizofrenia: cria a ilusão da felicidade no paciente. Ilusão... como assim?? Nada do que viveu foi realidade, querida. Nada? Nada. Resta-me então conceber a felicidade como apenas uma doença de meu cérebro.

sábado, 2 de outubro de 2010

Sobre o caminho

O caminho do meio tem suas dificuldades. Sua diretriz é o desapego às emoções pertubadoras, o cultivo da paciência, serenidade e altruísmo. Contudo, é complicado despir-se de todos os apegos emocionais e materiais desta existência. As emoções pertubadoras como o ciúme, raiva, ódio, desejo, são os inimigos da paz de espírito.
Vejo que o vórtice dessas emoções tenta, novamente, me atrair para seu interior. Esta vivência eu já tive, e agora eu a dispenso. Mas como é difícil dissipar todo a tensão que um certo campo magnético causa em mim...

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

As respostas

Todas as respostas que eu poderia obter por enquanto, bem, consegui-as hoje. E o hoje é sempre um dia de respostas válidas. O que mais? A exceção sempre é válida, desde que represente um novo futuro, uma nova opção. Masssss! Existe sempre o "mas"!

Trago

O último trago, dizia para si mesmo há três doses. O último era sempre o próximo. E o outro. Se parasse, pensaria. Se pensasse, lembraria. E...