Em questão de poucas horas, desci os círculos do submundo. Encontrei Eurídice. E no retorno, ao olhar sua face pelo que seria a última vez, eu entendi. Compreendi que seu lugar era ali, no submundo, no inconsciente, nas sombras de mim mesma.
Para sempre uma parte de mim, meio escondida, acessível nos sonhos e nos devaneios da madrugada, nos entremeios da lucidez e da embriaguez, nesse limiar entre mundos nós nos reencontramos.
Na descida, sozinha, percebi que a jornada é minha e somente minha. Que o caminhar para dentro é solitário, por mais óbvio que seja. Que o vazio acompanha, e sempre acompanhará.
Acendi o primeiro cigarro movida pela urgência do álcool. Os outros, pela solidão.
A fumaça trouxe uma calma fictícia, mas bem vinda.
Na noite pouco estrelada, a fumaça subindo no frio da madrugada, os anseios crus foram revelados. Ser amada, ser desejada. Ser livre.
A luz vermelha da torre me acompanha. Às vezes pisca. O cigarro apaga, e, enquanto acendo, tento me lembrar de quem eu fui. De quem eu sou. Do desejo latente, adormecido.
Rodando, girando ao redor de mim mesma no limbo, não tenho Virgílio para me guiar. Ou talvez tenha. Talvez seja uma das tantas vozes que ecooam no meu cerne. Uma das tantas vozes que calo com o tédio das redes.
O que exalo de mais concreto é fumaça que sai de mim.