quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Lembra-te de que és mortal

 Memento mori. Lembra-te de que és mortal.

O tempo aqui é curto. Algumas voltas em torno do sol e as rugas já se reúnem num rosto antes jovem. Os cabelos brancos começam a reluzir no topo da cabeça e a chamar atenção. A mente parece a mesma, com seus mil anos e mil vidas em uma. 

Mas o corpo sente o desgaste. Este invólucro feito de carne com data de validade.

Lembra-te de que és mortal. Todos os dias. Para que eles não sejam apenas segundos de um relógio esquecido. Lembra-te da tua missão, da tua vocação. Tão cedo ela apareceu. E foi deixada de lado. 

Lembra-te da sensação das palavras fluindo no papel em branco, de sua leveza e naturalidade. Lembra-te da pena azul e de tudo o que te cerca são ilusões coletivas.

Lembra-te. Pois esquecer está fácil demais.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Quase

Quase platônico. Quase apenas no plano das ideias. Quase.

Quase te disse eu te amo. Algumas vezes. Mas faltou coragem e imperou o medo. Medo de que você não me ame. Somente quase.

Quase desisti vez ou outra. Doi demais pensar e sentir isso. Então eu sigo em frente. Com a cabeça quase ereta.

Quase queria sentir menos. Quase queria ser menos. Mas não consigo.

Quase amaria menos se eu ouvisse mais aos meus demônios. Tampo os ouvidos. Quase louca, quase grudenta, quase surda.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Amor de perdição

Helel me disse alguns anos atrás que a redenção estaria no amor. Foi assim que ele, e eu, saímos das trevas. Aos poucos, um dia de cada vez, reconectando com quem fôramos, com as esperanças perdidas e reencontradas.

Helel não pode me contar o final de sua história, pois a interrompi. Tive medo.

Ele não me contou que amar é encontrar, é se encontrar e se perder (novamente). Não me contou que essa perdição no outro é fusão de amor, desejo, ciúme, raiva, carinho, preocupação e medo. Medo de perder o outro e um pedaço de si junto.

Helel, meu amigo, você não me falou do quanto chorou ao se apaixonar por Angélica, e vê-la passar na sua frente sem poder dizer nada. Você, que naquele momento já trazia um coração antigo e calejado no peito. E ainda assim, você a amou. E não poderia ser diferente. Você a amou como eu amo. Intensamente. Fervorosamente. Não sabemos amar pela metade, percebo agora. Não sabemos traçar um limite e dizer: daqui para frente não. É nosso defeito.


segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Amor em SP

Alguns anos se passaram. Existe amor em SP. Sempre existiu como uma semente, que hoje cresce vigorosa. Deste eu não tenho dúvida.

Ainda existe um outro amor em SP pelas letras. Por mais separada que eu esteja delas. É uma melancolia que carrego no peito quando paro para pensar. Existe amor em SP pela escrita, por mundos a serem criados com o riscar da pena no papel.

Não existe amor em SP quando me deixo levar por matérias pequenas, pelos carimbos da repartição, intriguetas e querelas políticas que não me pertencem.

Existe amor em SP quando olho para dentro e vejo uma jovem, adolescente ainda, cheia de esperança, concentrada na leitura, abocanhando livros inteiros em questão de horas. 

Existe. Mas longe de mim. Não consigo alcançá-lo. Os dias passam liquidamente pelos meus dedos, e um talento, uma vocação fica cada vez mais distante.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Voa, Fernão!

Hoje me lembrei de Fernão Capelo Gaivota, o simpático pássaro que não queria ser como seus companheiros e viver apenas para comer. Ele se importava apenas com o voo, em voar cada vez mais alto. Essa era sua missão.
Fernão foi excluído por seus pares por ser diferente e não seguir as tradições. Mas nem assim ele desistiu. Ele acabou se elevando e transcendendo, evoluindo espiritualmente por meio do voo.

E me pergunto: eu tenho voado? Ou apenas sobrevivo das migalhas?

Trago

O último trago, dizia para si mesmo há três doses. O último era sempre o próximo. E o outro. Se parasse, pensaria. Se pensasse, lembraria. E...