Viver. Ou sobreviver. Numa casca automovida. Que passeia pelo tempo-espaço e mal sente a passagem do tempo.
Viver na casca como um autômato. Em linha fabril. Totalmente alienado do processo de criação.
Sobreviver em coma intelectual. Apenas reagindo. Sem refletir. Apenas espelhando os outros ao redor.
Sobreviver das migalhas de atenção. Fartar-se de restos. Empaturrar-se de ninharia. E continuar de alma vazia.
Manter a boca cheia de palavras que nada significam. Somente ecoam e afugentam o silêncio. Pois é ele que carrega real importância.
Continuar os ouvidos surdos para os sussurros.
Caminhar como se houvesse direção, sendo que esta não existe.
Respirar fundo, como se o ar preenchesse. E não preenche.
Amar os teus olhos neste mundo de ruídos, acariciar a tua alma nesta terra de ilusões. Mas ineptos me sugam, me desorientam. E esqueço o que importa. Abstraio o lugar de onde vim. Esqueço do meu lar. Olvido as palavras roucas do meu espírito.
Mil sois virão antes que eu possa te esquecer, homem dos meus sonhos. E ainda assim, sinto que a memória do seu sorriso faria cócegas em mim quando estivesse absorta em meus pensamentos.