sábado, 27 de junho de 2009
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Silêncio cativante

Para aqueles detentores do poder da palavra, o silêncio assusta. Acua. É uma rebelião no sagrado reino das palavras.
Como pessoa falante, temo os silenciosos, pouco ruidosos, seres sensatos que apenas abrem a boca para soltar algo de válido. Perto dessas pessoas, torno-me apenas um bufão alienado, sem propósito.
Bocas mudas e olhos desinibidos. Olhares que falam numa linguagem mais antiga do que o mundo. Tenho medo desses olhares, que podem tocar a alma. Com um toque posso transformar-me em cativa de outrem.
"Tu és eternamente responsável por aquilo que cativas"
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Truco!
Era uma jogadora inveterada. Viciada. Obstinada. Conhecia os meandros de todos os jogos de cartas. Sabia dissimular e blefar. Assim como manipular os jogadores que dividiam a mesa consigo.
Nem sempre vencia. Existe o fator sorte. E existe também o medo. Não se pode deixar levar pelo medo. Quando se está na mesa, pensava ela, não se pode vacilar, não se pode temer, e deve-se arriscar. Se você não corre risco, não recebe o prêmio.
Sabia desistir, apesar de sua grande persistência. Às vezes uma retirada fazia-se necessária, para reagrupar-se e voltar com tudo.
Sabia também que a impulsividade não necessariamente caminha ao lado da intuição. É preciso ter a mente calma e limpa, para se pensar com clareza. E, acima de tudo, num jogo, não se deve levar nada para o pessoal. Porque quando o jogo se torna pessoal, o raciocínio falha, e a impulsividade age. E jogam-se todas as cartas, num louco frenesi.
Mas às vezes um jogo se torna pessoal. Os outros jogadores são provocativos. O desejo de vencer irrompe dentro dela. O orgulho, o ego e a honra são maus conselheiros. Todas as fichas ganhadas até ali são apostadas, numa única rodada. Não existe mais sensatez. Apenas o desejo. E ela diz a única palavra que poderia dizer naquele momento: “Truco”, que pode ser traduzida como “eu te desafio”.
sábado, 13 de junho de 2009
Uma cena fugaz

Ele tem o olhar de curiosidade. Quer saber o que se passa naquela mente tão peculiar. Os olhares se cruzam, e eles se fitam por um demorado tempo. Haveria algum reconhecimento neste momento partilhado? Não há tempo para respostas, apenas para questões mudas no ar.
Ele põe a mão no bolso. Desvia os olhos para o telefone. Duas chamadas não atendidas. Maria. A namorada. A Outra desloca seu olhar do semblante dele e mira, vagamente, a tela da TV. Sua mente vagueava pela insolidez do feitiço quebrado.
Trago
O último trago, dizia para si mesmo há três doses. O último era sempre o próximo. E o outro. Se parasse, pensaria. Se pensasse, lembraria. E...
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Como se desconstroi parte de si? Como se descontroi alguém que parece fazer parte do seu DNA? Ou de um karma acumulado de sonhos passados? ...
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Fui tantas. E outras. Ainda sou muitas. Ainda sinto desejos. Daquele tipo que não ouso nomear. Sou dele. E sou minha. Uma parte é apenas m...
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Dentro, o pequeno objeto repousava. Acomodado, no escuro. Aguardava o derradeiro momento, a grande abertura. Há anos circulava no mesmo bols...