segunda-feira, 15 de junho de 2009

Truco!


Era uma jogadora inveterada. Viciada. Obstinada. Conhecia os meandros de todos os jogos de cartas. Sabia dissimular e blefar. Assim como manipular os jogadores que dividiam a mesa consigo.

Nem sempre vencia. Existe o fator sorte. E existe também o medo. Não se pode deixar levar pelo medo. Quando se está na mesa, pensava ela, não se pode vacilar, não se pode temer, e deve-se arriscar. Se você não corre risco, não recebe o prêmio.

Sabia desistir, apesar de sua grande persistência. Às vezes uma retirada fazia-se necessária, para reagrupar-se e voltar com tudo.

Sabia também que a impulsividade não necessariamente caminha ao lado da intuição. É preciso ter a mente calma e limpa, para se pensar com clareza. E, acima de tudo, num jogo, não se deve levar nada para o pessoal. Porque quando o jogo se torna pessoal, o raciocínio falha, e a impulsividade age. E jogam-se todas as cartas, num louco frenesi.

Mas às vezes um jogo se torna pessoal. Os outros jogadores são provocativos. O desejo de vencer irrompe dentro dela. O orgulho, o ego e a honra são maus conselheiros. Todas as fichas ganhadas até ali são apostadas, numa única rodada. Não existe mais sensatez. Apenas o desejo. E ela diz a única palavra que poderia dizer naquele momento: “Truco”, que pode ser traduzida como “eu te desafio”.

Um comentário:

Trago

O último trago, dizia para si mesmo há três doses. O último era sempre o próximo. E o outro. Se parasse, pensaria. Se pensasse, lembraria. E...