Aprecio muito o exercício de, ocasionalmente, reler o que escrevi no passado. De relembrar o que senti tempos atrás.
Desde a fundação de Insensatez, eu oscilei muito. Ainda assim, percebo um fio condutor. Uma tomada de consciência (bem lenta, diga-se de passagem), uma luta contra a obsessão, mesmo que muitas vezes seja uma luta contra a maré. Contra alguns instintos primitivos e algo poderosos.
Quando comecei a realmente me desapegar (lembro-me um pouco daquela noite ébria), pouco mais de um ano atrás, isso inaugurou um novo momento. Mesmo louca, mesmo obcecada, me mantive em pé (mesmo que quase caindo). Algumas vezes incentivei, este meu ego umbilical, outras fui pega de surpresa, quando abordada por alguém. E continuei, tremendo, mas continuei firme (igual prego na gelatina) em minha convicção.
Sinto dizer que não sou imune. Gostaria de ser. Gostaria que isso acabasse.
A paz do começo do semestre parece evaporar. Mas são apenas impressões. A mente que projetou esta paz, bem, ela é mais poderosa do que muitos imaginariam. E ela domina a matéria como uma criança manipula argila.
Meu ego sado-masô tenta me levar para caminhos perigosos, devo confessar. Mas existem outras vozes, e ainda que o canto da sereia soe doce e libidinoso, amarro-me ao mastro do navio. Sou Odisseu, e preciso voltar para casa, para junto dos meus. Para junto de meu amor, que me espera pacientemente.
E então é isto. Um desafio. Agora percebo. Um desafio colocado em meu caminho, para que eu me fortaleça e siga pelo roteiro que estabeleci.
Sim, posso lidar com isto. Sou Odisseu, e meu navio segue para Ítaca. Alguns de meus companheiros morreram na viagem. Honrarei, então, suas memórias, quando voltar para casa. Compatriotas farão canções sobre minha jornada. E eu poderei descansar ao lado de meu amor, que me aguarda na Ilha.
Esta Odisseia é temporária. Ela é necessária para que se aprendam algumas coisas no caminho.
E as sereias são odiosos monstros, presos a suas condições. Enquanto Odisseu é mestre dos mares. Navega, com dificuldades impostas por deuses e pela Sorte, para chegar, finalmente, a seu destino tão esperado.
Inspiro-me então em Odisseu.