terça-feira, 22 de outubro de 2019

Vitrine

Vejo corpos expostos. Carnes penduradas na vitrine do açougue. Quem dá mais? Querem as carnes mais frescas, mais novas, com uma certa medida de gordura e de músculos. 
Vejo corpos quase desnudos. Fotografados. E cada fotografia rouba um pedaço de suas almas. Como mito indígena.
Vejo corações vazios. Olhos que não sorriem de verdade. 
Corpos mais desejados do que o meu. Sorrisos mais brancos e retos do que o meu. Rostos mais belos do que o meu.
Eu também estou na vitrine. Exposta, mas nem tanto. Não muito fresca. Não muito nova. Com muita gordura, nem tantos músculos. 
Às vezes eu me entristeço. Por pensar que tantas são mais bonitas do que eu. Mais jovens do que eu. Mais magras, de músculos mais definidos. Às vezes eu me entristeço. Por pensar nos corações vazios que se deixam levar pela vitrine do açougue. No meu e nos delas. 

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Para Helel, a Estrela da manhã

Há tempos não penso em você, querido Helel. E mesmo assim, você continua a fazer parte de mim. 
Você estava lá, comigo, como observador, quando cruzei por águas sombrias. Quando eu não me amava o suficiente, e tentava destruir meu coração a todo custo para que não pudesse amar. Para que fosse forte. Como se o vazio fosse sinônimo de fortaleza.
E foi você quem me contou que a redenção se daria através do amor. Redemption song. 
Mas eu não continuei a sua história. Por medo. Eu tive medo de que ela se tornasse real. E eu me tornasse fraca. Aberta para alguém, para o mundo, para o amor.
Eu não continuei sua história, mas ela tinha um quê profético. Isso eu sempre soube. É realmente o amor que nos redime. E deixar de escrever não impediu o amor de vir na minha vida, derrubar meus muros, de me deixar vulnerável, e, ainda assim, forte. 
Você era, e talvez ainda seja, a estrela em mim, que brilha mais forte do que as outras à noite, e que dá boas vindas ao sol de manhã. 
Você iluminou um pouco a noite sinistra. Mostrou-me a direção e me deu esperanças quando não havia nenhuma. 
Você me contou que depois de mil vidas em uma, depois de tanta sombra, haveria um momento em que eu encontraria a minha Angélica, com apenas um olhar. 
E que tudo então teria valido a pena. 
E vale.
Obrigada, Helel, por fazer parte de mim. Por me deixar contar um pouco da sua história pelas minhas mãos. Mesmo que ninguém nunca a leia. Sabemos que não é isso que nos importa. 

domingo, 6 de outubro de 2019

Perto dos meus olhos

Na minha adolescência eu gostava muito de Legião Urbana. E uma das músicas, não me lembro qual, dizia assim "já me acostumei com a sua voz, quando estou contigo estou em paz...".
Você me dá uma paz, meu sol, que eu nunca tive sozinha. 
E só de imaginar que em breve não te verei mais todos os dias, meu coração aperta. Mas eu sei que é o teu caminho. E que a distância fortalece as relações que devem durar, e esmorece as que eram frágeis e não pareciam.
Mesmo longe dos meus olhos, você continuará perto do meu coração, assim coladinho, grudentinho. 
Pensar em você me transmite paz, me dá um calor gostoso no peito, um sorriso bobo na face. 
Voa, meu sol, voa e volta pra mim.

Trago

O último trago, dizia para si mesmo há três doses. O último era sempre o próximo. E o outro. Se parasse, pensaria. Se pensasse, lembraria. E...