Vejo corpos expostos. Carnes penduradas na vitrine do açougue. Quem dá mais? Querem as carnes mais frescas, mais novas, com uma certa medida de gordura e de músculos.
Vejo corpos quase desnudos. Fotografados. E cada fotografia rouba um pedaço de suas almas. Como mito indígena.
Vejo corações vazios. Olhos que não sorriem de verdade.
Corpos mais desejados do que o meu. Sorrisos mais brancos e retos do que o meu. Rostos mais belos do que o meu.
Eu também estou na vitrine. Exposta, mas nem tanto. Não muito fresca. Não muito nova. Com muita gordura, nem tantos músculos.
Às vezes eu me entristeço. Por pensar que tantas são mais bonitas do que eu. Mais jovens do que eu. Mais magras, de músculos mais definidos. Às vezes eu me entristeço. Por pensar nos corações vazios que se deixam levar pela vitrine do açougue. No meu e nos delas.
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