quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Casca

Existe um ímpeto masoquista em retirar a casca de uma ferida que está quase cicatrizada. A casca cobre a ferida, protegendo-a das intempéries e de germes.
No entanto, a cicatrização é, por vezes, demorada. Cansativa. Incômoda.
Então a mão masoquista coça ao redor da casca, tentando não tocá-la.
A sensação de algo estranho grudado na pele é enervante.
Masoquista, a mão termina por arrancar a casca sobre a ferida, que sangra. Não tanto quanto a primeira vez. Mas sangra. E doi.

A casca se forma novamente, tempos depois.
Mais uma vez, é retirada, masoquísficamente, ainda que cause dor.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Ímãs

Sempre me encantei por olhos. Não digo a cor em si. Falo de alguns muito expressivos, que me deixaram entrever a profundidade da própria alma.
E exatamente esses olhos que me cativam: quando vejo, pela fresta de uma porta entreaberta, uma alma magnética que me atrai para dentro.
Posso falar em atração magnética então?
Quando encontro olhos assim, sinto-me como um ímã.

O desejo é o de tocar e não soltar nunca mais.

Mas eu não toco. 

Porque o desejo é só meu. E, ainda que não o seja, talvez eu nunca saiba.

O desejo nasce, então, do quase toque. Cresce no beijo sonhado que nunca existiu. Aumenta nas palavras não ditas. Sufoca nas areias do tempo que jamais foi seu. Morre na sarjeta, mendicante de um olhar que não era para ele.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

A caçada em si

A caçadora dormia enquanto a amante permanecia atenta.
Mas às vezes os sonhos daquela são turbulentos, enquanto a amante toma suas doses de profundos olhares.
A caçadora quer sair para passear, alongar as pernas, viver, sentir o vento nos cabelos. Não precisa caçar. Seu coração está pleno.
No entanto, sente esse chamado da natureza em seus sonhos. 
A caçada em si tem outro sabor. A incerteza da conquista motiva o empenho, e a enche de adrenalina.
Não saber o que virá a seguir, ao encontrar a caça, desperta um sabor único na boca.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Monstro de olhos verdes

Dentro de mim habitam vários monstros, vários personagens.

Mas um deles têm se sobressaído.

É um monstro de olhos verdes como esmeraldas, rosto de anjo, pele alva quase translúcida: uma bela e sedutora mulher, que canta divinamente, e atrai todos os olhares sobre si.

Seu nome é Chiara Rossi.

Tão linda, tão sozinha. 

Ela consegue o homem (ou a mulher) que quiser. Usa a beleza e o charme como armas.

Ao mesmo tempo em que foge da paixão que mata, ela busca o amor que cura.

Intensa, ela não sabe ser pouco. O seu muito é tudo. All in.

Será que ela saberá reconhecer o amor quando chegar? O amor é calmo. O "sim" é sereno.

A paixão? Essa é adrenalina pura. Profunda, como mergulhar naqueles olhos castanhos, tão escuros quanto o abismo. "Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você", ela se lembra de Nietzsche. E ela anseia pelo olhar de abismo, um olhar tão jovem, e, ao mesmo tempo, tão antigo quanto ela.

Chiara respira profundamente. O amor está ali. E a paixão, acolá. E ela se encontra em uma encruzilhada.

Como monstro que é, ela não escolhe os caminhos dispostos à sua frente. Desbrava seu próprio caminho: amar a um, apaixonada por outro.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Âmbar

Escondida, sussurrando em um sonho, ela desenhou na neblina de uma manhã gelada. Fez arcos, curveteou o indicador no ar, delineando os olhos que a perseguiam noite e dia. 

Um encontro fortuito. Surpresa, ela inspira, memórias a soterram, exalando sua viagem no tempo em segundos.

Âmbar, olhos de tigre a perseguem em sua mente. O corpo esguio, o andar felino de quem sabe dominar o ambiente, ele invade os pensamentos dela.
O cheiro, o toque, um turbilhão de memórias tomam conta de si. 
Ela para, respira profundamente com os olhos cerrados, e segue em frente, sem titubear. Aquela vida já foi vivida.
Agora ela é outra.


sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Tantas

Fui tantas. E outras. 
Ainda sou muitas. Ainda sinto desejos. Daquele tipo que não ouso nomear. 

Sou dele. E sou minha. Uma parte é apenas minha, e não revelo a ninguém. 
Sou uma curva dentro da outra, um Fibonacci infinito. 

Às vezes também não me sei. Só me sinto. Um caleidoscópio de anseios, de desejos famintos. E olhos que me beijam assim, de longe. 

Beijo os olhos, de soslaio, num rascunho de um caderno esquecido no fundo de um baú.
Beijo o pescoço mesmo sem poder, (quase) sem querer. Mas eu quis.

Num conto só meu, escrevo. Rabisco, pois o papel não me julga. Ele só me aceita. 
Esboço sem recitar em voz alta. Tenho medo dos sussurros da madrugada. 

A palavra dita não volta.
E a escrita? Volta? 
Talvez nem tenha ido.
A palavra escrita sonha, enquanto não voa.

Trago

O último trago, dizia para si mesmo há três doses. O último era sempre o próximo. E o outro. Se parasse, pensaria. Se pensasse, lembraria. E...