Havia este homem. Sua vida era povoada de amigos, familiares, amantes. Ele era o último a se queixar de sua sorte.
E então ele a conheceu. Jovem mulher, sedutora, encantou seu mundo. Ele se apaixonou por ela. Passava o dia todo a seu lado, acariciando sua pele macia e viciante.
Ela desapareceu. Sem dar explicações. Recorreu a seus amigos. Eles não souberam dizer o paradeiro dela, pois não a conheciam. Não, replicava o homem, eu mesmo a apresentei a vocês, lembro-me muito bem. Não, definitivamente não a conhecemos, nunca a vimos.
Seu desespero era palpável. Procurou-a em todos os lugares que freqüentaram juntos e nada. Agarrou uma garrafa de vodka, em busca de alguma paz. Encontrou o sono pesado dos bêbados. E sonhou.
No sonho, ele a viu. Ela sorria com a pureza da inocência perdida. Ela trazia uma das mãos fechadas. Abriu as palmas do homem e colocou um conteúdo nelas. Uma pílula. Ele acordou.
Havia uma pequena caixa preta no móvel ao lado da cama. Dessas em que se colocam anéis. Ele abriu. Uma pílula e uma frase anotada: Siga-me.
O homem não hesitou. Seguiu a migalha.
Deixou sua casa. Foi para o trabalho.
Não havia ninguém lá.
Era dia útil.
Errou pelas ruas. Nenhuma face amiga ou inimiga. As ruas estavam desertas. E nada de sua jovem.
Até que a viu através de um vidro. Ela acenou, mas não saiu da loja. Ele podia ouví-la. Onde estão todos meus amigos?, disse o homem. Eles não importam mais, agora que você tem a mim, querido. Ela gargalhou. Tome a outra pílula, meu amor, e estaremos para sempre juntos.
O homem teve medo. Seu amor tornava-se algo doentio. Sentia-se dividido entre escolher uma nova vida ao lado dela, ou retornar à anterior.
Foi neste momento que sentiu uma pontada no estômago. Devia ser sua gastrite nervosa. O ácido corroía-o por dentro. A dor era excruciante. Depois foi a vez da enxaqueca. Por fim, o vazio do desmaio.
Não soube quanto tempo se passou. Seus olhos se abriram no hospital. Algumas pessoas no quarto observavam-no, atentas.
O homem tentou levantar-se, mas foi impedido. Não entendia porque aqueles estranhos falavam consigo de uma maneira insistentemente íntima.
Alguém trajante de branco hospitalar se aproximou. Você não está em condições de sair do leito. Por quê? Você teve um surto, e foi trazido para cá. E por que não avisaram minha família? Querido, nós somos sua família. Eu não os conheço, nunca os vi em minha vida toda! Ele deve estar ainda sob efeito da medicação nova, é o tipo de efeito colateral que se tem.
Medicação nova, do que estão falando? Querido, vamos conversar sobre isso depois, agora você está muito estressado. Não, me digam agora!
O ar pareceu se encher de tensão. As mãos do homem formigaram. A sensação alcançou o corpo todo. Ele pediu um espelho. A contragosto, os desconhecidos o forneceram.
Ele viu a face refletida. A jovem mulher, encantadora. Um grito mudo ficou preso.
A medicação nova foi utilizada para tratar sua condição, querida. Minha condição? Sim, querida: Felicidenia. Felicidenia, o que é isto? É um tipo específico de esquizofrenia: cria a ilusão da felicidade no paciente. Ilusão... como assim?? Nada do que viveu foi realidade, querida. Nada? Nada. Resta-me então conceber a felicidade como apenas uma doença de meu cérebro.
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