terça-feira, 10 de agosto de 2010

Canção da Redenção: a sentença de Helel

Se redimir-me significa viver as vicissitudes humanas, que assim seja. Procuro a paz de espírito que nunca tive.
O que seria esta paz? Parar de buscar o indizível, o inexistente. Eu não sou anjo nem humano, e ao mesmo tempo carrego as duas essências em mim. Tenho tantos dons poderosos e nunca soube o que fazer com eles. Meus dons quase sempre serviram apenas aos meus caprichos, aos meus vícios. É por saber que sou mais do que meus dons, mais do que meus torpes erros ou tentativas de acerto, por querer continuar a existir e encontrar algo pelo qual eu queira viver, que eu aceito a decisão deste tribunal ao qual me submeti de livre e espontânea vontade. Renuncio à imortalidade, aos meus dons, às criaturas que criei, aos mundos que modelei, à minha herança por direito de meu pai Samael, à minha conquista da administração da Criação, à minha essência angélica. A partir deste momento sou humano.
Ao dizer esta palavra, humano, já sinto um coração palpitar dentro de mim. E já não os vejo mais, a nenhum anjo ou ser sobrenatural deste tribunal. Por favor, me tirem daqui, antes que esta dor de ser natural e de não pertencer a esta dimensão estraçalhe meu corpo.

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