domingo, 19 de janeiro de 2014

A caminho da liberdade

              A liberdade é dessas coisas difíceis de descrever. Ela é mais uma sensação. Um estado de espírito. Do que uma definição dicionarizada. E quem melhor para falar dela do que alguém que não a possui?
                Escravo escrevo. Escrevo escravo. Escravo dos meus sentidos. Escravo do meu gênero. Escravo dessa paixão que teima em não deixar meu peito. Escravo das lembranças que atormentam minha (não) paz de espírito à noite.
                Meu mundo, antes tão cheio de cores e sabores. Hoje é monocromático e insosso. Apenas consigo ver uma cor. Cinza. Um estado pós chama, pós incêndio que levou o restante de minha racionalidade. Cinza. Do fim certo para um dia cinza. A cor que chove. A cor que alagou tanto e não mais. O meu canto elegíaco para o cinza. Meu rito fúnebre para aquilo que queimou tão depressa, e logo se tornou cinza.
                Os olhos dela são cinza. Num primeiro momento achei que fossem verdes. Mas numa análise mais detalhada notei sua peculiaridade cinza. São da cor de tempestade. Cor de tormenta que passou pela minha pacata vida.
                    E ela sai da minha vida assim como entrou. Tão de repente que parece não ter existido, e que é apenas um sonho estranho com ares de realidade.
             Ela disse: estamos indo rápido demais. Tudo muito intenso. Não consigo me achar nesse amontoado de sensações novas e loucas. Eu fui insensível, talvez. Eu respondi: não. Oito ou oitenta. Não posso viver pela metade. Não posso ser pela metade. Não posso sentir pela metade. Não posso apenas te emprestar meu coração nas horas vagas, e levá-lo de volta comigo para casa.
              Confesso que fraquejei. Uma semana depois a procurei novamente. Meu sangue fervia de saudade. Eu precisava daquela paz que estar com ela me proporcionava. Pela primeira vez, na altura dos meus trinta anos, eu havia encontrado alguém que silenciava meus demônios. Já habitei por tanto tempo os porões do inferno, com minha horda de demônios como companhia, que estar com ela era o bálsamo dos bálsamos.
                Senti-me como um viciado em drogas na pura abstinência. Seu toque me queimava a pele. E eu que me tornava cinza. Seus beijos não mataram a minha fome dela. Apenas aumentaram mais ainda a minha dor. Entrei novamente na espiral de emoções descontroladas.
                Deixei-a naquela manhã. Com um sabor amargo nos lábios. Sabor de despedida.
        Não nos vimos mais como amantes que fomos. Tornamo-nos conhecidos. Desses que se cumprimentam na rua com um aceno de cabeça. Vê-la rodeando outros homens me deixou algemado. Procurei por distração nas mulheres que sempre passaram por minha vida. Mas meus olhos continuaram procurando pelo cinza.
                Decidi me afastar por completo. Tal dependência não era vida. Deixei de frequentar o ambiente em comum que partilhávamos. Evitava falar sobre ela com amigos em comum. E então soube que ela vai embora.
                Não sei como deveria me sentir. Se este alívio de poder respirar aliado à dor de saber que talvez nunca mais a veja é normal.
                Eu, que sempre fui um garanhão, o grande conquistador de mulheres, pulando sempre de galho em galho, sem compromisso, fui arrebatado por uma jovem inexperiente e quase virgem. Eu, que sempre me gabei de minha insensibilidade. Eu, que nunca consegui fechar os olhos ao lado de alguém com quem fiz sexo. E sonhava ao dormir do lado dela. Eu, que demorei tanto para encontrar alguém que considerasse merecedora do meu afeto. Eu a perdi. Talvez nunca tenha sido minha.
                Orgulho. Escravo de meu orgulho. Recuso-me a rastejar a seus pés. Pedir que volte para mim. Reconsidere. Não vá embora. Eu não posso trocar um mestre por outro.
                Escravo de meu amor próprio, tão duramente conquistado.
                Escravo de meu livre arbítrio. Por mais estranho que seja dizê-lo.
                Escravo das minhas lembranças de você, querida tempestade tropical. Tão calma por fora. Tão borbulhante por dentro.
                Ainda escravo, almejo minha alforria. Liberdade, eu te conquistarei.

Plano 1:
                Afogar-me em álcool. Obviamente não funcionou. Sem mais comentários.

Plano 2:
                Jogar-me na libertinagem. Tão ruim ou pior do que o Plano 1. Todas são outras. Muito pouco perto da lembrança dela.

Plano 3:
                Viver. Esperar.
Disse-me um dia um velho sábio: “se você contar cada gota que cai no lago, nunca o verá se encher”. Tento não contar os dias. Nem as mulheres ocasionais que aparecem e somem nas horas vagas. Penso que um dia será como uma velha memória, cheia de pó, guardada nos recônditos de minha mente.
Recordo o que um “oráculo” me disse certa vez: “você conhece sua alma gêmea por completo”. E é apenas por isso que sei que não é ela.
Ela conseguiu um feito inédito. Sem nem ter tal intenção. Fez com que eu me abrisse por completo para outro ser humano. Fez com que eu fosse sincero todo o tempo. Eu, que me gabava de minhas habilidades em mentir e enganar.
Hoje penso que talvez ela fosse apenas o arauto de novos tempos. De uma Nova Era para mim. Ser mais humano.
Talvez ela tenha sido somente a mensagem “seu amor está chegando, e você precisa aprender a se abrir”. E se assim for, não haverá mais mágoa. Nem rancor. Nem sabor amargo nos lábios. Haverá gratidão.

Assim, eu caminho rumo à liberdade. Não sei como se chega. Mas sei que estarei lá quando menos imaginar.

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