Cada um tem aquilo que pede. O que mais anseia. E os medos são isso. Ansiedades. Quase-desejos que se tornam reais.
Na minha loucura de relações basicamente mentais, de uma solidão voluntária, concebi um personagem viciante. Apaixonante. Simplesmente cativante. E me apaixonei por ele.
Meu primeiro "eu te amo" foi dito a alguém que não existe. Nunca existiu. Pura insanidade fantasiosa de alguém que não aceita a realidade. Rasmalhov foi um grande escapismo traumatizante. Foi com Rasmalhov que tive um relance de minha própria loucura. Rasmalhov foi minha fusão da realidade com ficção.
Tenho medo de mim, e por isso me tranco a sete chaves. Medo de um novo personagem. Ainda que eu tenha vindo pra cá pensando também em outro esboço de personagem. O grande pesadelo/sonho de uma escritora (amadora): viver no mundo que idealiza, sonha, escreve sobre.
Fecho-me e espero por alguém que possa resolver o enigma. Mas está errado. Está tudo errado. Presa no casulo não posso voar, me desenvolver. Preciso resolver meu próprio enigma. E perdi a chave. Talvez a tenha engolido, já não me lembro. A dor era tanta, e só podia enterrá-la, escondê-la de mim no mais recôndito cofre.
Como num antigo projeto literário, necessito ser uma arqueóloga de minhas lembranças. Descobrir o que está escrito por baixo desse palimpsesto que é minha mente.
Em minha Bíblia está uma ótima frase para esta confissão:
"A sua única obrigação em qualquer vida é ser sincero consigo mesmo. Ser sincero com outra pessoa ou outra coisa não só eh impossivel como ainda é a marca de um falso 'messias".
Richard Bach
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