Uns tantos anos atrás li um livro muito interessante chamado "A luneta mágica". Foi logo no início de minha adolescência, animada por "Moreninha" e "O moço loiro", segui no terceiro livro de Joaquim Manuel de Macedo.
O personagem principal, um homem (já não me lembro o nome) de dinheiro, alguma inocência e muita miopia acaba por encontrar, por meios obscuros, uma espécie de xamã (ou qualquer outro nome que se queira para um mago). Este mago lhe fornece três lunetas mágicas, uma de cada vez (os pormenores não me lembro). A primeira era responsável por uma visão hard core, punk, metal, lado negro da força a quem quer que a usasse, mostrando apenas a maldade das pessoas. A segunda fornecia a quem a usasse uma versão la vie en rose da vida, digamos, o lado rosa-choc da força. Todas as características boas das pessoas eram ressaltadas e os defeitos desapareciam. E finalmente, a terceira luneta corrigia a visão para a realidade. Nem bom, nem mal, apenas real.
E no fim, o sujeito decide continuar a ser míope, sem uso de luneta alguma (Posso estar enganada, talvez seja assim que eu terminaria a história).
O livro já antecede a escola literária realista em muitos de seus termos e observações maliciosas da sociedade. O que creio que ele alerta, no entanto, é quanto aos extremismos. O míope precisou passar por três instrumentos com suas diferentes características para poder chegar à conclusão de que ele é capaz de pensar por si mesmo, de saber que algumas desconfianças serão sempre isso, desconfianças imbuídas de dúvidas, e que um coração nunca é totalmente bom ou mal.
Há uma semana tive minha vista corrigida. Literalmente, do relativo astigmatismo e de uma breve pincelada de miopia. E quanto a minha mente, ao meu coração, seriam também corrigidos assim, através de um instrumento externo a mim? Antes o distante era para mim paisagens borradas, de cores impressionistas que se misturavam. Agora vejo as linhas que contornam tudo ao meu redor. É chegado o tempo de usar a terceira luneta. Até que eu possa ver sozinha. Para que eu possa mudar com meus pensamentos, meus hábitos, meus atos, meus sentimentos.
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