Narciso está sentado à beira de um lago. Vê sua imagem refletida nas águas. E o que vê o terroriza. Sua própria imagem, maculada pela sujeira do lago.
Ele é um monstro. Um corcunda de alguma Notre Dame. Algum fantasma preso a uma ópera. Uma fera, dividido entre sua própria monstruosidade e o amor a uma linda donzela.
O amor de monstro é tragicamente belo. Inspira pena, algum tipo de comoção. Mas ninguém está disposto a amar um ser distorcido.
Inicialmente, como vemos em todas as histórias, o monstro deseja apenas ser deixado em paz, só. Por algum motivo, acaba por reconhecer a beleza em alguém. Uma bela alma, recoberta por uma imagem igualmente atraente.
A tormenta começa no espírito turbulento do monstro: amar nunca havia sido uma possibilidade real. E amar alguém tão fora do alcance, tão distante do mundo sofrível e monstruoso que existe em sua mente... parece simplesmente irreal.
O monstro hesita. Há duas opções: deixar-se levar pelo sentimento, declarar-se, lutar, conquistar a amada. Ou negá-lo, fugir como se o amor fosse uma doença contagiosa e terminal.Nas comoventes histórias de filmes, livros infantis, o amor vence e torna o monstro um ser belo.
Em minha história, o montro continua acorrentado a seus próprios medos, lendo sempre o mesmo livro, chamado "eu avisei".
Boa noite, meu nome é Narciso.
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